Passei numa universidade federal… e daí?

Para os que não sabem, eu faço engenharia elétrica na UFSC desde 11.1. Passar para uma federal ou estadual é algo difícil, tendo em vista que os processos seletivos para elas são bem mais complicados que para particulares. Ok, estando em uma, indo todos os dias nela, você começa a refletir o que faz delas serem melhores que particulares.

Sim, temos particulares boas no Brasil, mas quando estamos no terceiro ano do ensino médio sempre nos empurram a imagem de que as federais e estaduais são muito melhores que particulares. Analisando, deveriam ser mesmo. Elas possuem mais investimentos de empresas privadas do que nas particulares (com exceção de uma ou outra privada), além da verba do governo. Além disso, na engenharia ao menos, as federais normalmente possuem laboratórios renomados.

Porém, na engenharia, venho percebendo algumas coisas incomodas relacionadas as universidades públicas. Muitas vezes você terá aulas dispensáveis, pois o professor não possui uma estratégia pedagógica, algumas vezes não terá aula devido ao professor ter faltado (ou ter entrado de greve). O pior são aqueles que até dão aula, porém as vezes poderá ser algo que não tem nada a ver com o curso, ou seja, algo que nunca será usado.

Ainda falando nos lecionadores, quem nunca conheceu alguém que fez aula com um professor que reprovou praticamente todo mundo (isso se não foi com você)? Antes de reclamarem que é vagabundice, perguntem para essas pessoas como eram as aulas, listas de exercício, monitorias e provas. Sim, provavelmente dirão que era totalmente fora de nível (listas fáceis, provas impossíveis), ou que não havia suporte por parte do professor. Além disso temos aqueles que nem sabem direito o que está passando, como professores que não conseguem resolver certas questões quando requisitados.

A solução para esses problemas: ser autodidata e ter sorte de entender realmente o conteúdo. Nem preciso dizer que isso é completamente contraditório para uma universidade. Além do mais, não fui eu que inventei. Foram meus veteranos falando no primeiro dia de aula, isso demonstra que é um problema de longa data. Caso não consiga implementar tal solução, paciência e aguarde o próximo semestre, afinal, todo semestre eles lecionam essa matéria. Quem sabe você não pega um professor diferente daquele que exibe as mesmas transparências de 30 anos atrás?

Ok, o problema das aulas é somente uma parte. Essas universidades se gabam por seus laboratórios. Eles realmente são interessantes, já que você pode entrar em projetos de qualquer tipo (desde experimentos de condicionamento psicológico até automação de uma indústria – cursos diferentes, óbvio) e realizar o que sempre desejou. Porém, normalmente será necessário um professor ou coordenador e a maioria não instiga o empreendedorismo, a liderança e o trabalho em equipe, algo que é muito necessário hoje quando se entra para o mercado de trabalho.

Vejo, num futuro próximo, muitos colegas meus chegando no mercado sem preparo para gerenciar uma equipe. Não houve incentivo nessa área durante todo o curso (e realmente não há em nenhum curso, tirando eng. de produção talvez) e quando ele começar a trabalhar começará a sentir a necessidade disso. É claro, há outra opção, que seria continuar na vida acadêmica.

Continuar na vida acadêmica é uma escolha para várias pessoas, afinal, gosto é gosto. Caso o estudante ir para o mercado e entrar num laboratório de uma multinacional, provavelmente ela se dará bem tanto financeiramente quanto pessoalmente (realização pessoal). Porém aqueles que querem fazer mestrado e doutorado e continuar na carreira acadêmica, existe um porém. Oferecem uma micharia como remuneração, você não trabalha realmente (é só um bolsista perante o governo – tente pedir uma folha de pagamento) e nem sempre terá o trabalho valorizado. Nesse caso, a pessoa estará fazendo porque realmente quer e gosta disso, porém algumas realmente precisam de dinheiro para se manter e então precisam ficar se humilhando para conseguir se manter financeiramente. Isso é o que o governo quer para nossos estudantes atuais e futuros (afinal, esse mesmo estudante provavelmente será professor quando for doutor)?

As melhores universidades do país são as públicas. Será mesmo? Tenho pena do povo brasileiro se as particulares forem assim também.

Mais sobre a vida acadêmica nesse post

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2 opiniões sobre “Passei numa universidade federal… e daí?

  1. Bruno, podemos ver diversos problemas em relação ao ensino de engenharia no Brasil. O que vejo na UFSC é que 90% (chute baixo) dos nossos “professores” são pesquisadores quase que obrigados a dar aula, o que acaba se traduzindo no que você disse com “não possui uma estratégia pedagógica”.

    Outro fator que piora é a falta de feedback que existe ao final de cada semestre letivo. Ou seja, eu, veterano, passei por um professor ruim, com didática péssima e todos os outros adjetivos para classificar um péssimo professor, mas não faço nada. Não vou à coordenação, na chefia do departamento, não relato nada ao Centro Acadêmico e fico dando risada quando o calouro que vem depois “se ferra” do mesmo jeito que eu. Eu já fiz isso, até perceber que essa atitude só piora a situação.

    Sobre o que você escreve sobre empreendedorismo vejo que o problema não é algo apenas das universidades, mas o nosso país é mais voltado para o funcionalismo público. Isto já é algo cultural do Brasil, que vai levar um tempo pra mudar (http://goo.gl/63RMD).
    Falando novamente sobre “Professores vs Pesquisadores”, os nossos lecionadores, na grande maioria, seguiram apenas a vida acadêmica, entendendo pouquíssimo sobre gestão, sobre como empreender e, as vezes, veem esse lado gerencial como algo desnecessário (já ouvi essa palavra de um professor, quando conversando sobre esse assunto).
    Por outro lado, eu já vejo, principalmente na UFSC, diversas tentativas de trazer esse lado empreendedor para a graduação, entretanto por iniciativas externas, como as EJs, PETs, NEO entre outras instituições.

    Enfim, acho que todas essas dificuldades acabam fazendo com que se formem engenheiros resolvedores de problemas, daqueles que vão atrás das soluções e/ou auto-didata como você comentou. O problema que eu vejo é que essas dificuldades e problemas não são controladas podendo transformar o estudo de engenharia massante e desmotivador.

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